A autora


Elaine Cândida, By Elaine Cândida (2017)
Desde que me entendo por gente, entendo também que quadros são uma grande paixão minha. Minha prima cuidava de mim e dos meus irmãos quando éramos bem pequeninos, e foi vendo-a desenhar que aprendi a traçar minhas primeiras bailarinas. Eu tinha grande facilidade para desenhar, mas não sabia que tinha recebido do Criador o dom de pintar.

Bailarinas... Esses foram meus primeiros desenhos com ótima definição, já aos meus cinco anos de idade. Não sabia eu que a vida seria um grande balé, onde a bailarina principal do espetáculo seria eu...

Certa vez, nessa dança eu caí. Ou, antes, logo cedo me derrubaram. Foi na pré-escola, quando na época do Natal, uma professora nos deu o desenho de um pinheiro com bolas de natal e uma estrela na ponta do alto para pintarmos. E determinou que deveria ser pintado com a cor verde. Como fui dotada pelo meu Senhor de criatividade, dinamismo e inovação, não deixei que a professora interferisse na minha obra de arte, e segui meu bom gosto: eu pintei meu desenho com amarelo e azul claro, para produzir um tom verde florescente, que era bem mais vivo e alegre aos meus olhos.

Só que a professora não queria que criássemos respeitando nossos gostos pessoais e potencialidades, mas sim que reproduzíssemos o que ela gostava, apenas. E subitamente arrebatou o trabalho da minha mesa, expôs minha pintura a todos os colegas e vociferou: "Olhem só que coisa horrível! Eu não falei para pintar com o verde? Se alguém fizer essa mistura de cores mais uma vez, eu vou rasgar o seu desenho e jogá-lo no lixo." Lamentável, não? Ela não percebeu, mas havia acabado de matar uma artista...

E com esse trauma inconsciente, até os meus 27 anos de idade, eu não mostrava nenhuma das minhas produções às pessoas, a não ser para minha mãe, para meus irmãos e para o meu professor.

Professor? Ah, sim! Deixei de falar sobre a pessoa que me ajudou a descobrir que eu sabia pintar. Aos dezenove anos, eu e minha família nos mudamos para outra cidade satélite daqui do DF. E não por coincidência, mas por "cristocidência", um irmão em Cristo me contou sobre um vizinho que fazia um projeto social com meninos de rua e lhes ensinava uma profissão. Esse mesmo professor cobrava uma taxa simbólica de pessoas da comunidade que quisessem participar do projeto.

Não preciso dizer que eu pensei ter entrado pelas portas do Paraíso quando adentrei àquele velho barraco cheio de telas originais por todos os cantos das quatro paredes, uma a uma pintada com excelência pelo professor Chiquinho, um artista nato, que nunca frequentou uma escola de pintura. E foi ali, numa escolinha de fundo de quintal, que cursei cerca de 15 aulas de pintura prática em tela, utilizando tinta para tecido e telas feitas de lona reaproveitada das placas e cartazes dos supermercados.

Nunca cursei história da arte. Nunca fiz um curso superior nessa área. Tudo o que fiz foram essas poucas aulas práticas, que me ajudaram a desenvolver a habilidade de que fui dotada pelo Superior do universo.

E assim, bailando ao som das notas da minha existência, gentilmente regida pelo Autor da Vida, foi que cheguei a uma sala de aula para formação de professores, aos 21 anos de idade, depois que eu já tinha me formado como Técnica em Contabilidade no Ensino Médio (na época, 2º Grau), aos 17 meus anos.

Numa das aulas de Psicologia, no Magistério, uma professora nos contou sobre os traumas que muitas crianças sofrem por causa da falta de sabedoria com que a maioria dos educadores lidam em relação às diferenças dos alunos. E foi durante essas explicações que me recordei do fato ocorrido na minha infância, adormecido na minha consciência por todo esse tempo. Foi então que eu percebi que era hora de parar de pintar telas e escondê-las nas pilhas num canto do meu quarto, mas apresentá-las às pessoas e ampliar meu espaço neste vasto mundo.

Só que esse processo de libertação em meu interior levou anos. E somente aos 27 anos de idade eu comecei a apresentar meu trabalho a amigos e conhecidos. Só aos 28 anos comecei a vender minhas telas. As primeiras que vendi foram as primeiras que pintei e, por causa dos muitos erros de perspectivas e também devido ao material de pouca qualidade com o qual elas foram confeccionadas, vendi todas a preços simbólicos. Foi aqui que a artista morta pela professora da pré-escola começou a ressuscitar pelo poder invencível de Jesus...

Hoje, uso tintas profissionais. Estou determinada [e já trabalho para isso] a crescer mais nesse seguimento da minha vida. Dia após dia e sob a dependência do Senhor de toda glória, mesclo um pouco da mulher que gosta de pintar, da que ama servir a Cristo pregando o Evangelho, falando do Seu amor, louvando Seu nome com a alma, com um pouco da educadora, da amante das letras e das palavras que vê no ato de escrever um refúgio e um desabafo, para ser um pouco adoradora em tudo o que faz, e para louvar o Senhor me fez enquanto canto a uma música que se chama "Elaine Cândida de Castro", e cujas notas têm sido cuidadosamente organizadas pelo Espírito Santo de Deus. (Muitas vezes, erro a letra, mas Ele sempre me ajuda a corrigir isso.)

Hoje, eu não só bailo pela vida. Eu também a pinto. E quando assino uma tela, sempre tenho a sensação de ter concluído mais um grande projeto. Não pelo fato de eu estar engrandecendo o meu trabalho, mas pela certeza que ele foi realizado com todo meu amor, dedicação e para a glória do meu Deus.

Amor,  dedicação e santidade...

Creio não existir melhor assinatura para a essa imensa tela do destino que pintamos a cada dia. Creio não haver notas mais lindas para compor esse balé que se chama vida.

Misericórdia, Graça e Paz do Senhor sejam com você!